BPN (Banco Português Nacionalizado)1




Não faço a mínima ideia do que significa a nacionalização do BPN para a economia portuguesa, para o sistema bancário, para a família ou para os accionistas. Podiam ter dito que nacionalizavam o BCP, o Santander ou o Montepio, que ficava na mesma.

Não é que não perceba o que ali está, o problema. A questão não é semântica ou de interpretação da conjuntura. O meu problema é outro, é aquele que está para além da próxima terça-feira, ou da passagem de ano, ou mesmo das legislativas. A minha ideia perigosa é que tento imaginar um Estado em que todos os bancos precisem de ser nacionalizados. Ou um Estado em que todas as empresas farmacêuticas precisem de ser nacionalizadas. E as leitarias, e os supermercados, e as estações de rádio.

Porque não interveio o Estado no fim do O Independente ou de A Capital? Será que a liberdade de imprensa e a ajuda que a comunicação social dá ao "pensar" da sociedade não vale tanto como os bancos?

Vejamos se me explico: eu não me importo que o Estado nacionalize a banca em apuros, se isso servir para defender quem tem dinheiro nos bancos e os próprios trabalhadores. O que me custa é que não se intervenha em sectores, digamos, menos palpáveis mas igualmente importantes. Todos temos uma nota de dez euros no bolso. Poucos temos uma ideia, uma crónica ou uma reportagem na carteira. Mas o que as segundas fazem é questionar, mostrar, debater e criar dinâmicas sociais, que são o fundamento da evolução.

O sistema financeiro foi desenhado para que a sociedade progredisse. Mas esta só o faz se, e quando, os que podem e devem pensar, desafiar, estão lá, presentes e operativos.

Hoje, a nacionalização do Pacheco Pereira, da Helena Roseta, do embaixador Cutileiro, do Adriano Moreira, do João Aguiar, do Lobo Antunes, da Lídia Jorge, do Manuel Alegre, do Louçã, do Pedro Arroja, do Paulo Portas, do Adelino Maltez, sei lá, de tantos, parece-me bem mais urgente do que a nacionalização de um banco que pode - e deve - ser comprado por outro banco. Sim, porque os bancos em Portugal, segundo nos dizem, estão a perder percentagem de lucros, não a ter prejuízos. Por isso, uma qualquer CGD pode comprar o BPN, garantir depósitos aos honestos e deixar que a justiça trate dos outros - os maus gestores que danificaram a instituição.

Sinceramente, o que sinto é que estamos na fase do mercurio-cromo de uma ferida que vai gangrenando. Não sei para onde. Mas estranho...
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