Há pequenas ideias por todo o lado. Há ideias para resolver a crise. Há ideias para o desemprego, para o desapego, para libertar as taxas do gasóleo. Há ideias para mães solteiras e para um julgamento justo dos políticos corruptos. Há ideias pequenas para aumentar o subsídio de desemprego, para melhorar o salário mínimo, para fazer uma história para a TV. Há pequenas ideias para a próxima legislatura, pequenas ideias para lidar com Hugo Chavez.
Há pequenas ideias de humor, há ideias quase inexistentes de tudo.
Mas não há grandes ideias. Avassaladoras, inspiradoras. Não há ideias arrebatadoras, daquelas que podem mover milhões. Estamos sem grandes elans, sem um grande objectivo. Não sentimos em nós o grande peso da dinâmica, de querer avançar, de mudar o que existe.
Passar para as energias alternativas e por os carros a consumir coisas renováveis não é uma grande ideia, é uma questão técnica. Acabar com a crise financeira não é uma grande ideia, é uma necessidade a curto prazo.
Mas aquelas grandes ideias que levaram às grandes guerras, aos hippies, à revolução política, às expressões que se firmaram, como Make Love Not War ou o economicista New Deal, essas não aparecem. Hoje, a Revolução dos Cravos não seria. Não há nada que una os portugueses, quanto mais o mundo. A dissipação de coisas comuns através da net não conferiu aos povos um novo modo de pensar. Estamos na fase de absorção, mas há momentos em que ficamos a olhar para o browser sem mais caminho.
A atenção humana está reduzida a oito minutos, sejam eles na rádio, na tv, no computador, no cinema.
A grande preocupação com o dinheiro e a capacidade de nos ligarmos a outros através da net levou a que as pessoas se fechassem em casa, na grande ilusão de que estaríamos protegidos da crise e, ao mesmo tempo, em comunhão de facto com o mundo.
Só que, enquanto isto acontece, a maioria está a ficar solitária, sem saber o nome do dono do café da frente, sem imaginar o que se passa no bairro e na cidade. Os que resistem já não fazem tertúlias desinteressadas. Os que se reúnem ainda são aqueles com desejo de poder - nas mais diversas áreas - e com o fito único da conquista pela conquista.
Se pudéssemos fazer uma radiografia aos desejos, hoje o salve-se quem puder estava no cérebro da maioria. Há uma cobardia generalizada para a partilha mas, ao mesmo tempo e paradoxalmente, uma necessidade de partilha.
A falha está, assim, nos níveis de confiança. Pouco confiamos em nós e nos outros. Em nós, porque temos medo de falhar as expectativas externas. Nos outros porque eles, como nós, padecem do mesmo mal e, ainda por cima, sabem que confiar é depositar em mãos alheias as chaves do carro.
É preciso uma força mobilizadora, uma ideia global, um projecto inovador, uma força tão nova, tão original, tão concreta, que traga de novo as gentes à soleira da porta.