
- Não sei se consegue entender, mas o que importa não é o sexo em si...
- Não entendi.
- Humm. Compreenda. Eu nada tenho contra o sexo, adoro, é coisa que me deixa extasiado, havia de ser sempre com uma belíssima banda sonora, uma vezes de manhã cedo à vista do Alentejo outras nas madrugadas geladas de Nova Iorque, umas rapidinhas aqui e ali, dentro de um elevador, num lugar público, isso agora não importa.
- Continuo sem entender.
- É que me custa... Como dizer isto? Há uma linha de privacidade que só se ultrapassa com aquilo a que os livros chamam de amor. Ou de paixão, nunca compreendi muito bem.
- Você é um gajo estranho. Então se uma miúda qualquer se fizer toda boa numa discoteca você não vai a correr dar-lhe a queca?
- ...
- Não vai? Epá, você é doente.
- Não, não vou. Isto é, se antes houver dança de pavão, sabe, daquelas em que a aproximação demorou uns minutos longos, se houver um timbre de voz que me agrade, se à saída da discoteca nos decidirmos pelo nascer do sol e tudo acabar na cama, não digo que não. Já o fiz, caramba.
- Lá está você. O nascer do sol, a converseta. Ó homem, sexo é sexo. É simples. É uma queca. Pega no dito e pimba...
- Epá, não. Desculpa. Eu posso estar em minoria, soçobro a isso, não contesto, a esta hora devem estar milhões de pessoas, olhe, a pagar por uma queca sem beijos nem conversa. Mas faz-me confusão, isso. Acho que perdia a tusa toda.
- Você é muito estranho. Essa agora! Que queira namorar, eu ainda percebo. Aquilo das flores, e tal, ok, não digo que uma vez por outra isso não possa ser bonito. Mas agora tornar uma queca num romance... isso é de doidos, homem. Vai ver-se grego para arranjar mulher.
- As minhas mulheres, a quem amo eternamente independentemente do fim que fomos tendo, guardam, pelo menos, como eu, para a história, um ou dois momentos bons, no meio do ódio ou da indiferença. Não me vi grego. Levei tampas, tive noites memoráveis, até vivi com algumas e longos anos, veja lá...
- E isso deve dar-lhe uma tusa desgraçada, que elas se lembrem de si como o gajo romantico que dava quecas com a rádio ligada.
- Com música...
- Ou isso. Epá, faça-se à vida. Nem a filhos chega, assim.
- Já tenho.
- Já tem filhos?
- Já.
- Pois, isso das flores dei uma vez uma à minha mãe e à minha mulher quando ela teve o primeiro filho.
- Ela teve o primeiro filho? E o meu amigo? Ou o filho não era seu?
- Era, porra, mas está a querer dizer o quê?
- Nada. Como deu a flor à mulher quando ELA teve o primeiro filho, pensei que se fosse seu dissesse, sei lá, "quando tivemos" não "quando ela teve"...
- Epá, meta-se na sua vida!
- Abraço, chefe.
- Abraços é para os paneleiros.
- Certo, chefe.